Blastionário! recebe thi
Blastionário! · Entrevistas · thi
Essa entrevista foi transmitida no programa "Blastionário!" do dia 25 de julho de 2008. As perguntas que a compõem são espontaneamente enviadas por ouvintes da Rádio Blast! (algumas são também formuladas por Tiano, apresentador do programa).
Acho que o aspecto político [do mundo] é reflexo do aspecto humano. E a humanidade está muito egoísta, consumindo muito, desperdiçando muito e escolhendo mal seus representantes. Mas eu, como futuro professor, tendo a achar que essas coisas têm solução com a educação
Thi, em 25/07/2008.
Nome completo: Thiago Bogossian Porto- Idade: 18 anos
- Na rádio: apresenta o programa Plug In Baby e Nine in the Afternoon
- Tempo de rádio: 1 ano e 9 meses
- Ocupações fora da rádio: estudante, estudante e estudante. E DJ, nas horas vagas (mesmo fora da rádio)
- Como você se descreve: Indeciso
- Para baixar o programa: acesse o post no Arquivo B!
Tiano: Como DJ de rock ocidental, o que o público do Brasil pode esperar do show do Muse durante essa semana, tendo em vista que é uma das bandas mais cotadas para se ver ao vivo/ Aproveitando, como se deu o seu contato com o rock?
thi: Acho que o Muse tem que esperar mais do público brasileiro do que o público brasileiro esperar do Muse (risos). Não, falando sério. É que toda banda sai do Brasil dizendo que foi o melhor show da sua carreira, mas eu acho que eles dizem isso pra todos os países (risos). Eu acho que o brasileiro pode esperar um showzaço, de uma banda que faz rock como muita gente não fazia há um tempo, com melodias carregadas, letras profundas e um jogo de luzes e telões fantástico. Meu contato com o rock se deu com a minha mãe! Ela sempre escutou muito Pink Floyd, Rolling Stones, The Smiths e The Cure quando não escutava MPB. Meu primeiro CD foi uma coletânea do Raul Seixas! Eu só fui me voltar pro rock atual quando comecei a escutar Foo Fighters, Red Hot Chili Peppers e Offspring nas rádios, bandas pras quais eu, curiosamente, nem ligo muito hoje em dia.
Katsumoto: O que você acha do mundo atual? Tanto no aspecto político quanto no aspecto humano?
thi: O mundo atual tem salvação. Não tenho dúvida de que ele é um lugar ruim para se viver e muito injusto, mas não acho que estamos caminhando para o fim. Acho que o aspecto político é reflexo do aspecto humano. E a humanidade está muito egoísta, consumindo muito, desperdiçando muito e escolhendo mal seus representantes. Mas eu, como futuro professor, tendo a achar que essas coisas têm solução com a educação. Se as pessoas tivessem uma educação com uma qualidade um pouquinho melhor, elas teriam mais consciência, mais respeito e amor pelo próximo e, conseqüentemente, a política estaria melhor.
Tiano: Como é comandar um programa de debates em uma rádio jovem? Há alguma história interessante/engraçada ou uma discussão em particular que você tenha na memória que valha a pena comentar?
thi: Eu acho muito divertido comandar um programa de debates. Tem vezes que os ouvintes estão mais participativos, tem vezes que menos. Mas sempre alguém tem alguma coisa interessante pra acrescentar ao debate, seja no IRC, no MSN ou na página de pedidos, coisas que inclusive eu nunca tinha pensado. Acho que a história mais marcante pra mim foi quando eu comentei da existência de um Youtube e de um Orkut cristãos. Para entrar nesse Orkut cristão, a primeira pessoa que você tinha que aceitar como seu amigo era Jesus Cristo e pra virar usuário desse YouTube você tinha que gravar um vídeo com uma homenagem a Jesus Cristo, Deus ou a Virgem Maria e mandar para os usuários "jesus_cristo", "deus" ou "virgem_maria", que avaliariam seu vídeo para saber seu grau de adoração pra você ser permitido a fazer parte desse YouTube. Um ouvinte ficou puto comigo, dizendo que Jesus não se expressava por coisas criadas pelo homem (como o Orkut ou o YouTube), você tinha que senti-lo, que aquilo era um desrespeito, etc. Eu continuei provocando e o ouvinte continuou me respondendo pela página de pedidos. Não deu meia hora do fim do programa ele já tinha feito um tópico na comunidade da Blast! reclamando que eu era um DJ ruim, intolerante, não sei mais o quê... Eu respondi bastante cordial, mas disse que estava no meu direito, etc. O cara só sossegou quando o Hick começou a fazer intervenções. Lembro que depois a discussão perdeu o foco e virou uma troca de ofensas pessoais entre o JohnVeeJones (bastante católico) e o DJ Buddye (bastante ateu), e o Hick teve que excluir o tópico pra que a briga parasse.
NeoConcepts: Todo mundo que te conhece ou lê o blog do seu programa sabe que você gosta de falar/refletir sobre os problemas sociais, políticos e ambientais do mundo, mas você já tomou alguma atitude concreta contra esses problemas como cidadão?
thi: Eu não quero ser só um intelectual do neosocialismo. Eu tento participar de manifestações com temas que eu acho relevantes, como a que teve dia 1º de abril desse ano, denunciando as mentiras dos governos municipal, estadual e federal, no Centro do Rio. Eu também dou aula num pré-vestibular comunitário, para que pessoas de qualquer idade que não tiveram acesso a uma educação de qualidade tenham alguma chance de entrar na universidade pública. Mas também acho que o próprio fato de apresentar um programa crítico de debates sobre temas atuais numa rádio jovem pode ser considerado uma atitude concreta contra esses problemas, certo? Vai, eu estou falando pra mais de 200 ouvintes e já falei pra mais de 400. Se as pessoas refletirem, nem que seja um pouquinho, sobre as coisas que eu falo já é uma atitude concreta contra esses problemas.
Bruno Henrique: A Lei Seca entrou em vigor em Junho. O que poucos sabem é que a partir de 0,1 mg de álcool por litro de ar expelido no exame do bafômetro (ou 2 dg de álcool por litro de sangue, pouquíssimo, não?!) há a suspensão da carteira do motorista. Segundo seu conhecimento diante desse fato, cite alguns pontos positivos e negativos dessa nova lei.
thi: Pois é, tão dizendo por aí que se você comer um bombom de licor já é pego pelo bafômetro. É uma lei chata e que me dá mais um motivo pra não ter vontade de ter um carro. De fato, após algumas mudanças, o número de acidentes diminuiu consideravelmente. A pergunta é: o número de acidentes diminuiu por que a lei foi modificada ou por que passou a ter uma fiscalização mais eficiente? Porque a lei antiga considerava 0,6 mg, ou seja, dois copos de cerveja, chopp ou vinho, o que é uma boa quantidade. Mas não tinha fiscalização. Com a nova lei veio nova fiscalização. É claro que com dois copos de cerveja os seus (pelo menos os meus) reflexos já ficam um pouco alterados. Mas o sono também diminui os reflexos e você vai ter sua carteira de motorista suspensa por que dirigiu com sono? É uma boa questão a se pensar.
Bruno Henrique: Atualmente, a grande maioria de jovens escolhe não mais graduações que lhes agradem, mas aquelas que lhes trarão uma maior remuneração, unindo o útil ao agradável. Por esse motivo, quais foram suas motivações para ingressar em uma faculdade de geografia e em quais ramos pretende se especializar?
thi: É uma pena que as pessoas escolham estudar coisas que não lhes agradam. Essa mentalidade louca que ter algo vale mais do que ser algo é lamentável. Mas ainda há salvação (risos). Algumas pessoas ainda resistem a isso, como eu, Tiano, Hick... Seu trabalho tem que ser prazeroso, se não você vai acabar sendo uma pessoa infeliz, independente se isso vai fazer você ter mais ou menos bens. Enfim, essa não era a pergunta. Eu quis fazer geografia pra estudar um pouco de como funciona o mundo para tentar melhorá-lo. Me formar, lecionar e quem sabe fazer um curso de pós-graduação, mas isso ainda não está nos meus planos com precisão. Se for pra me especializar por alguma coisa, tenho interesse pela Geografia da Amazônia, pela Geografia dos Movimentos Sociais, pela Geopolítica, pela Geografia da Fome e pela América Latina.
Luan: Thi, quero saber sua opinião sobre o projeto de lei de criminalização da homofobia. Você acha que sua aprovação pode invisibilizar outras práticas que também são de caráter homofóbico, mas não se encaixam na lei, como a discriminação institucionalizada na família, na escola, no serviço de saúde, na instituição militar, etc?
thi: Eu acho que a lei de criminalização da homofobia é um passo importante na luta por uma sociedade mais justa. É claro que ainda tem muita coisa que deve ser feita, a militância não pode parar por causa de um "projetinho de lei". Na verdade, acho que o que mais temos que refletir a respeito é se a sociedade está preparada pra essa lei. Porque uma coisa é a maioria da sociedade estar conscientizada que os homossexuais devem ter os mesmos direitos civis que os heterossexuais e que o preconceito é crime e a lei servir para punir quem está à margem da sociedade. Outra coisa é a sociedade ser naturalmente preconceituosa e a lei "forçar" os cidadãos a respeitarem os homossexuais, mesmo que contra a sua vontade, o que parece ser o quadro atual. A primeira alternativa me parece mais interessante, mas ela é uma luta a longo prazo, que envolve investimento na educação cidadã, respeitosa e digna, o que nossas escolas infelizmente no momento não possuem.
KyoII: No mundo em que vivemos, é correto acreditarmos em sentimentos puros?
Katsumoto: O que é, pra você, o amor, a amizade e o ato simples de viver?
thi: Kyo, acredito que é correto sim acreditarmos em sentimentos puros. Os problemas do mundo existem porque o sistema é cruel mas também porque existe muita falta de amor. Eu acredito que só o amor constrói. Quando eu vejo alguém como Daniel Dantas estampado na capa de todos os jornais e revistas do Brasil a primeira coisa que eu penso é "a mãe desse filho da puta não deve ter dado amor e carinho pra ele, por isso ele ficou assim". Ou seja, se George W. Bush pudesse amar mais e ser mais amado (e fizesse mais sexo), o mundo seria um lugar melhor pra se viver. Katsumoto, essa é difícil. Acho que existem vários amores, aquele que você sente pelo seu(sua) namorado(a), pelos seus pais, pelo seu cachorro, pelos seus amigos e um no sentido amplo. Acho que os primeiros a gente está cansado de saber, a gente usa sempre. O amor no sentido amplo, por sua vez, acho que não pode ser definido, ele pode ser expressado de mil maneiras. Quando você se revolta ao ver um bicho sendo maltratado é uma expressão de amor. Quando você dá lugar pra alguém deficiente, quando você se emociona com um filme que você assiste, quando você cria arte, enfim... Existem mil maneiras pra você expressar o seu amor. A amizade é o amor do amigo. Por fim, o ato de viver, pra muitas pessoas, é nascer, crescer e morrer, o que é uma pena. Pra mim, viver é nascer, crescer, se emocionar, amar, sorrir, chorar e morrer, sendo que os únicos que não podem ser mudados de ordem são o primeiro e o último (nascer e morrer). Fica aqui uma frase do Fernando Pessoa: "Jamais desista de ser feliz, pois a vida é um espetáculo imperdível!"
Tititi: Você sempre disse que não trocaria o Rio de Janeiro por nada. Bom, agora você tem um relacionamento à distância em São Paulo, cidade cheia de possibilidades de emprego e a um pulo daqui. Fora a presença de amigos seus lá também. Essa idéia de se mudar ainda é remota?
thi: O Tititi fez uma boa pergunta. Eu já disse que não trocaria o Rio de Janeiro por nada, mas também já disse uma vez que não teria um relacionamento a distância. Enfim, as pessoas mudam. Mas eu também tenho muitos amigos de coração aqui e seria difícil não poder ligar pra fulano e dizer "quero te ver agora, vem pra cá!". Não está em meus planos precisos viver em São Paulo, mas se as oportunidades me levarem até lá eu vou atrás delas. Quem sou eu pra ignorar uma oportunidade?
Baixe o programa com a entrevista em áudio, comentários de Tiano e Tititi e mais uma seleção de músicas do entrevistado clicando aqui.
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Jorge dos Santos Valpaços disse:
sex, 27/03/2009 - 20:07
Serei sincero. Sou relativamente novo como audiência da RádioBlast! Passei a acompanhar o DJ Tiano por sua forma de avaliar o mundo e analisar as condições da existência humana. Contudo, fiquei extremamente feliz por conhecer um pouco mais o dj thi e seu engajamento social. Também tenho uma preocupação grande para construir um mundo mais igualitário, e já estou concluindo minha graduação em História, a qual também terei nas aulas uma excelente oportunidade para tal "tarefa". Como você, acredito que em cada conversa, em cada mobilização está uma oportunidade para construir um mundo melhor.
Enfim, fico muito feliz por saber que há mais pessoas lutando por esse ideal.
Parabéns.
Herb disse:
sab, 28/03/2009 - 00:58
É, esse é o thi!
Ótimo ter na equipe pessoas tão politizadas e com pensamentos tão a frente. Principalmente por se tratar de uma rádio com público jovem, que encontra em pouquíssimos lugares estimulos para pensarem e aprimorarem seu lado civil.
Linda entrevista, e o thi como sempre arrasano nas respostas!!
Tiano disse:
dom, 29/03/2009 - 14:46
ATORON quando o Herb fala ARRASANO!
thi disse:
sab, 28/03/2009 - 19:49
Muito obrigado ao Herb e ao Jorge pelos comentários! Mensagens como essa dão mais vigor ainda pra gente seguir em frente. Que a mobilização e a luta continuem! ;)